Às vésperas de completar seis décadas, a percepção se aguça; as palavras adquirem novos matizes, e a jornada neste mundo revela sua intrínseca complexidade. Recordo-me da primeira e dramática lição, aos dois anos de idade, quando a morte roçou minha infância. Encontrei-me suspensa sobre uma valeta profunda e cheia d'água, agarrada à resistência tênue de um punhado de capim-gordura, até que a providência de um homem bondoso me alcançasse. Sou eternamente grata à tenacidade daquela erva humilde e à mão salvadora que me pouparam de uma partida precoce.
Com o passar dos anos, compreendi que atravessar esta vida com recursos modestos é, paradoxalmente, uma imensa fortuna. É na escassez que o coração se curva, sentindo a dor da ausência: os sonhos aparados, os presentes de Natal não recebidos, os passeios adiados, os castelos que habitavam apenas a tela. Tudo isso transformou a existência numa aventura tecida diariamente.
No entanto, quando finalmente se conquista a liberdade para alçar voo, descobre-se a legião daqueles que buscam ceifar as asas recém-adquiridas. É um cenário onde o incentivo é raro; muitos aguardam o esgotamento do combustível, o retorno inevitável ao caos de outrora. A vida se estabelece, então, como uma batalha incessante.
É nesse limiar que a alma encontra a Fé. Ao render-se, com humildade e reverência, ao Amor do Todo-Poderoso, os caçadores de asas perdem seu poder, desmantelados um a um.
Esta é a essência: o caminho foi árduo, mas a alma permanece inabalável e de pé.

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